
Está tudo mal, mas sente-se Ser português é responder «vai-se andando» mesmo quando estamos sentados há duas horas a discutir o país. O Tzé Polvinho domina esta modalidade: tem a prestação da casa, o carro na oficina e uma dor nas costas, mas, se lhe perguntam como está, responde «não me posso queixar». Depois queixa-se durante quarenta minutos, sem respirar, porque também o ar anda uma vergonha. A queixa exige treino diário: no Inverno falta sol, no Verão sobra, e na Primavera anda tudo muito esquisito para a época. O Tzé reclama do Governo, da oposição e do vizinho, que estaciona como se estivesse a colonizar o passeio. Mas basta um estrangeiro concordar que Portugal funciona mal para ele se levantar em defesa da pátria. Criticar o país é um exclusivo nacional; aos visitantes oferece-se um pastel de nata e muda-se de assunto. O café é que mantém esta engrenagem a trabalhar. Podemos estar atrasados para o emprego, para o médico ou para o casamento, mas há sempre tempo para uma bica — até porque decisões importantes de estômago vazio dão mau resultado. O Tzé pede o café curto e a conversa comprida, num volume que permite ao bairro acompanhar o debate sem sair de casa. Quando lhe pedem que fale mais baixo, fica ofendido: estava apenas a esclarecer um assunto ao primo na Suíça, sem recorrer ao telefone. Depois vem a saudade: da sopa da avó, dos amigos e daquele tempo em que tudo era melhor, incluindo as coisas de que então nos queixávamos. O Tzé suspira, limpa uma migalha do bigode e convida o recém-chegado a sentar-se. Pode faltar dinheiro e sobrar preocupação, mas arranja-se sempre mais uma cadeira. «Isto está uma miséria», anuncia ele, puxando-a para a mesa. «Tome um café, que eu pago.»






















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